Jornal do Brasil (02/03/2008) – Para encontrar os ralos de dinheiro público que possam existir nas contas do Pan, a investigação em curso no Tribunal de Contas das União (TCU) deve ter um aliado no Congresso. A depender da conclusão do colegiado do tribunal, a CPI do Pan pode finalmente ter fôlego para sair do papel.
É o que espera o deputado federal Marcelo Itagiba (PMBD-RJ), que, no ano passado, chegou a reunir mais de 100 assinaturas para instaurar da comissão, mas desistências por pressão de líderes partidários fizeram a lista desandar:
- Os parlamentares do DEM não se interessam por causa do prefeito. No PMDB, apesar de alguns terem assinado, não há interesse por ser o partido do governador. Por fim, tem o governo federal que barrou o apoio do PT e até de aliados, como o PC do B.
O deputado acredita que o xadrez político que trava a criação da CPI deverá ter peças mais arrumadas assim que o TCU votar os próximos relatórios.
Ministro faz críticas
O ministro Marcos Vilaça, relator dos processos no tribunal referentes ao Pan, já se manifestou oficialmente sobre as contas dos Jogos, e de forma nada animadora. Em relatório divulgado ano passado, a quatro meses antes do Pan, Vilaça reclamou: “Infelizmente, a falta de planejamento parece ser a grande constante em todas as ações relativas aos Jogos (…) a proximidade dos Jogos fez surgir uma babel de convênios, licitações e contratações de última hora que configuram a falta de planejamento das ações relativas ao Pan”.
No mesmo relatório, disponível para consulta na internet no site do tribunal, está parte da explicação para tamanho aumento de despesa para erguer o Estádio João Havelange. Um trecho destaca ser “recorrente a existência de contratos que foram substancialmente alterados no decorrer de sua execução, tal fato é um indício da possível inadequação dos projetos básicos utilizados nas licitações”.
O resultado de tantas modificações é a celebração, em caráter de emergência, de aditivos orçamentários. Com o início do Pan se aproximando, mais e mais aumentos de gastos tinham de ser aprovados para não comprometer a obra mal planejada.
- Ou não se sabe planejar, ou no fundo foi tudo uma grande negociata – sentencia Itagiba. – As obras de urbanização do entorno do Engenhão, conforme prometida, não saíram do papel. As ruas são pequenas e, em dia de jogo, a dispersão do público é complicada.
Assessor do Crea, o arquiteto Canagé Vilhena pôde ver de perto, no mês dos Jogos Pan-Americanos, em julho do ano passado, as falhas resultantes da obra acelerada. Ele vistoriou o estádio depois que uma ventania derrubou um muro:
- Só na parede que delimitava o terreno do Engenhão, o custo foi dobrado, pois teve de ser reconstruído. Uma das rampas de acesso teve de ser refeita pois estava com concreto rachado. O calçamento da entrada, feito de pedras, estava solto… – descreve o arquiteto.